quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Gay baunilha

Estamos acostumados com o termo "gay" que vem da língua inglesa e significa alegre. Recordo-me que na época em que eu transei com homem pela primeira vez (década de 1970) quem fazia sexo com outro homem era chamado de viado. Portanto, quando transei pela primeira vez passei a ser um viado. 



De modo que na época eu era um viado e não um gay, porque o termo gay no Brasil não existia ou era muito pouco conhecido e utilizado. Assim naquela época quem era "gay" era chamado vulgarmente de viado, e isso tinha uma conotação pejorativa. Com o passar do tempo o termo gay se popularizou no Brasil para designar homens que fazem sexo com homens (HSH) e não carregava uma conotação pejorativa à prática homossexual.


Gay Vanilla é um termo da língua inglesa que em português traduz-se por Gay Baunilha e aplica-se ao gay que pratica sexo sem incluir na transa os "brinquedos" como pênis de borracha, roupas e apetrechos de couro, drogas, sado-masoquismo, bareback, tapinhas, fetiches etc, ou seja, só faz o basicão.


Um cara gay baunilha não pratica nenhuma prática "bizarra" (no entender dele...), prefere o sexo mais suave, romântico, convencional. Em inglês Gay Vanilla é o contrário de Gay Kinky. Então o gay kinky adota elementos para apimentar a relação sexual, o gay baunilha nunca.


Penso que leva ainda um tempo para o termo gay baunilha ficar conhecido. Relembrando, eu quando  quis transar com outro homem não consegui fazer isso na cidade em que morava, Campinas, e peguei o ônibus da Cometa e fui para São Paulo. 



Costumava ir para São Paulo passear no Shopping Iguatemi na Avenida Brigadeiro Faria Lima e aproveitava para almoçar e passear pela avenida, às vezes eu ia até o Shopping Eldorado. Era essa a minha distração e quando começava a anoitecer eu voltava para Campinas. Mas uma vez eu decidi que ia para São Paulo para transar com um homem pela primeira vez. No sexo gay baunilha, porque eu nem sabia direito como era fazer sexo com outro homem. 


Era o medo da primeira vez, ainda mais na época eu não tinha ninguém para poder falar sobre minha homossexualidade. Mal resolvido como eu era, eu tinha começado a ir a um psicoterapeuta mas achei que não ia me ajudar e parei de frequentar. Estudava e trabalhava e a minha vida era só obrigações e meus pais estavam se separando. Fui à São Paulo para ver o que ia conseguir, não sabia se eu comeria ou daria, mesmo porque naquela época eu nem sabia que tinha essas divisões, achava que o normal era cada um meter no outro. Mas não foi bem assim que rolou. Na verdade fiz sexo mas não foi como eu imaginava que seria a minha primeira foda com outro homem.


Pra começar lá pelas seis da tarde eu entrei na Praça da República, naquela época era a praça antiga, sem boa iluminação, sem metrô, até a feira de artesanato ainda funcionava lá. Fiquei dando umas voltas, fui num bar numa avenida que vai dar no Largo do Arouche, tomei umas cervejas, jantei, voltei pra praça.


Estava me sentindo mais confiante e enfim um cara passou e a gente conversou. Acabei indo para o apartamento dele, um cara magrinho, alto, branco, com um papo legal que não me assustava, parecia que eu não teria problemas, dava pra encarar. Fomos pro apartamento dele num condomínio imenso na Avenida 9 de Julho. 



Sarramos, beijamos, foram os meus primeiros sarros e beijos num homem. Ficamos assim até umas 8 horas e ai eu achei que nem ele e nem eu partia pros finalmente, ficaria só naquilo, disse tchau e voltei pra Praça da República.


Já era hora de eu ir para a rodoviária, que ficava ainda no final da Avenida Duque de Caxias, naquele tempo. Mas depois de ter sentido o calor do corpo de um homem pela primeira vez eu não conseguia parar com aquilo, tinha que tentar mais uma vez. Sabia que ali não iria encontrar coisa boa mas, enfim, eu estava com muito tesão, tinha que arriscar.


Nas minhas exigências não aparecia um cara legal, estava difícil, até que lá pelas 10 da noite, depois de muito andar pela praça e beber mais cerveja no bar perto da praça, apareceu um outro cara, mais ou menos bonito, alto, magro, branco, sem barba nem bigode, parecia um trabalhador, destes que sai da loja e passa pela praça, mas na verdade, a praça era um lugar havido como perigoso e cheio de viados, um trabalhador não entraria na praça, no máximo passaria pela calçada externa. 


Ele não era um profissional do sexo nem um frequentador da praça, como eu ele só tava dando uma volta para ver se pegava alguma coisa. Conversamos e ele me disse que era do interior, falei pra ele que eu também, ai combinamos de dividir um quarto num hotel.


Fomos na direção da Avenida São Luis e lá perto da biblioteca vimos o Hotel Del Rio. Foi nesse hotel que ficamos para uma noite de sexo. Ele sabia mais o que fazer do que eu e por isso acabou me comendo. Fez isso porque eu não sabia como fazer ele entender que eu estava na praça para fazer tudo. Acho que ele já tinha encontrado cara em outra ocasião na praça e achado que eles só queriam ser comidos, aliás era o mais comum de acontecer porque na praça a quantidade de travestis e viados desmunhecados era grande.


Eu nunca tinha sofrido tanto na minha vida mais do que naquela hora em que ele enfiou o pau dele na minha bunda virgem. Eu pensava que depois seria minha vez de comer ele mas eu sentia tanta dor que não quis mais sexo depois que ele acabou. 


Então a minha primeira vez foi como passivo. Mas depois que voltei para Campinas e até o dia que me mudei para Belo Horizonte só fui ativo. E sempre na linha gay baunilha.


Fiquei um tanto quanto chateado pela minha primeira vez com um homem não foi do jeito que eu imaginava. O bom foi que conversando com o cara ele me ensinou como é que é uma foda gay, o que rola entre dois homens.


Eu conversei com ele muito naquela noite e ele me esclareceu coisas que eu não tinha como saber, por timidez e por ignorância de minha parte. Me lembro que uns meses antes dessa transa eu entrei quase chorando numa igreja no centro de Campinas e não era hora de missa e o padre estava por lá.


Fui conversar com ele e não disse que eu sentia atração por homens mas disse que eu estava muito confuso com o que fazer da minha vida. O padre sentou no banco e pediu para eu por a minha cabeça nos joelhos dele, porque eu estava quase chorando, eu coloquei a minha cabeça e falava o que eu sentia. Ele começou a empurrar a minha cabeça na direção do sexo dele, me levantei rápido e fui embora. Nunca mais assisti missa nessa igreja.


Depois disso já no segundo ano da faculdade me envolvi com um cara casado. Começou como amizade. ele trabalhava em outra empresa mas na mesma área que eu, como eu fazia um turno noturno que ninguém queria fazer eu passava a maior parte da noite sem ter o que fazer, era muito pouco o serviço, era mais acompanhar o sistema funcionando.


Ai via telex a gente conversava e um dia a gente se encontrou. Nunca beijei ou transei com ele mas fiquei apaixonado. As conversas que a gente tinha me bastavam, sexo era dispensável. Cheguei a uma situação insustentável, ele era casado, me enrolava e ainda tinha uma amante. Um dia a coisa desandou, ainda bem sem violência,  e nunca mais o vi.


O que você percebe é que minha iniciação no sexo com outros homens foi uma coisa muito complicada porque os caras não eram os caras certos pra mim, isto é, minha cabeça precisava de caras mais estáveis e com compromissos mais estáveis. Mas pelo menos eu saí do armário e passei a ter vida sexual gay.


É uma loteria encontrar o cara certo, mas se a gente não vai à luta, meu querido, dificilmente vai acontecer algo. Uma vez li num livro de auto-ajuda a seguinte frase, muito verdadeira: Se você fizer sempre as mesmas coisas sempre obterá os mesmos resultados. Uma vez que é uma verdade essas palavras, não me arrependo dos vários caminhos que tomei, foram necessários para eu chegar à minha saúde física e psíquica de hoje. Valeu!

Um comentário:

  1. como marcar um encontro com você.Gostei você.

    ResponderExcluir