quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Antigas cartas de amor ou algo assim

Em primeiro lugar quero dizer que agradeço muito a estas pessoas que um dia expressaram em cartas o quanto gostavam de mim. E sinceramente pedir a elas, após tantos anos, o seu perdão por eu não ter conseguido entender o que era amor, o que era o seu amor por mim. Estou profundamente triste e pedindo sinceras desculpas e espero que tenham encontrado, depois de passarem em minha vida e eu nas vidas delas, o amor em outra pessoa e que, atualmente, estejam amadas e felizes.


Quando eu morei em Brasília eu conheci um rapaz negro, baixinho e gordinho. Ele frequentava um terreiro de candomblé e queria ser um dia um Pai de Santo. Eu o amava mas um dia o amor, ou paixão, acabou, e eu rompi com ele. Ele não esperava que a relação acabasse.  O Lulu não tinha muito a me oferecer porém ele tinha o maior amor do mundo para me dar. Eu achava que isso não era o suficiente.  Eu me aborrecia quando ele voltava e pedia para retornarmos porque eu achava que merecia um cara melhor, mais rico, mais inteligente, mais divertido. Em seguida fiquei sem o amor dele e fiquei sem o amor dos caras mais ricos, inteligentes, divertidos. Esta carta foi escrita por ele um dia antes do meu aniversário.


"Brasília, 7/9/94. Oi meu xxx. Há muitos homens maravilhosos neste mundo mas de algum modo eu sei que você é o único pra mim. Não é difícil saber porque . Você tem tantas coisas que preciso e adoro... Você é sensível, mas forte, sério, mas divertido, romântico, mas prático também. Você me deixa ser eu mesmo e isto me faz feliz. porque [posso ser] a pessoa que sou. Gosto muito de você. Do seu Luluzinho. Obs.: 8/9/94. Seja, sempre, um caminho de paz na vida de alguém. Ternura e alegria. Só assim conquistará grandes escritas na vida. Do seu você já sabe,


Em 1996 eu conheci um outro cara negro e gordinho, acho que eu tinha uma queda por homens negros, e a gente ficou pouco tempo, talvez um mês. Ficamos até o dia no qual ele me apresentou o seu melhor amigo, o Willian, ai eu me apaixonei por ele. O cara me disse como é que você me troca pelo meu melhor amigo? e eu respondi, aconteceu. Também não durou muito. Eu me lembro que eu e o Willian íamos dormir no motel após a boite Fashion, na época a boite ficava no Barro Preto, e me lembro que o William adorava água. Ligávamos o chuveiro e a gente ficava tomando banho juntos, quando eu saía, ele ainda ficava debaixo do chuveiro, cantando e me falando coisas engraçadas.


"XXX.  Que as desilusões não sejam barreiras para [nos fazer] desistir de lutar. Mas que elas se tornem a única razão de você lutar e mostrar a todos que você é capaz de vender. Willian. Confio em seu taco. Parabéns por ser essa pessoa envolvente e por cima de tudo gostosa. 29-maio-96. Beijos"


Em 1995 eu tive que ir a São Paulo fazer um estágio e fiquei num hotel que a empresa escolheu. Ficava cercado de colegas durante o estágio e durante a permanência no hotel. Fiquei de saco cheio e resolvi ir à uma boite à noite, chamada Star. Lá encontrei um cara e dançamos e bebemos a noite toda. Quando já tinha metrô nós fomos para a casa dele, longe pra caralho. Esse cara ficou apaixonado por mim, mesmo sabendo que eu era um caso passageiro de no máximo um dia na vida dele. Ele me mandou algumas cartas para Brasília, onde morava. Parecia que me amava mesmo!



"Isto é eu pensando em você! Só você me faz ficar assim! Te amo muito. Aqui estou fazendo isto [o desenho] e chorando [e] pensando em você! XXX. Desculpe-me se você não gostou. É porque eu sou muito romântico...Eu fiz com as minhas próprias mãos. Fim por fim. Feito por mim. Cloves"


Depois recebi várias cartas dele, respondia mas falando de coisas gerais, não dava esperanças para ele. Um conhecido dele me mandou essa carta mas eu não mudei minha posição com relação aos sentimentos do Clóvis.


"São Paulo, 14 de fevereiro de 1995. Prezado XXX. Tomei a liberdade de escrever para você, sem ao menos te conhecer pessoalmente, mas preocupado com o estado que se encontra o Clóvis. Ele atualmente só fala em você, cria um mundo de fantasias em relação a você. A consequencia disso é que ele se encontra em cama com febre, chorando pelos cantos da casa, abatido e desanimado. Pelo fato de ser uma pessoa muito sensível, as reações dele chegam a me preocupar. Você entende como são essas coisas. Ele me deu as suas cartas para eu ler e pelo estado dele, ele não considera apenas uma amizade. E se ele está apaixonadíssimo por você , tenha paciência, isto não significa que eu esteja interferindo no relacionamento de vocês. Ele só fala que gostaria de ir pra Brasília, passar o carnaval com você. Está muito ansioso. Um forte abraço. Aldemir."


Em 1996 eu estava morando e trabalhando em Belém e um dia na praia conheci um cara, acabamos tendo um relacionamento de mais de um ano, só acabou quando eu voltei para Belo Horizonte. Cara, a gente se entendia muito bem na cama e fora dela. Eu estava sob muita pressão no trabalho, que eu odiava, detestava, tinha nojo e raiva do que eu trabalhava. Eu fui muito infeliz em Belém, tirando as idas à praia, a família na casa em que eu tinha alugado um quarto, e o meu "namorado" de Belém que era então a única fonte de prazer que eu tinha.


"Belém, 19-11-96. XXX. Tudo bem com você? Com alegria e saúde estou bem graças a Deus. Enquanto o amor partiu deixando muita saudade. Às vezes fico pensando os momentos felizes que passamos juntos na Praia de Cutijuba. É nesse momento que a saudade aumenta mais. Mas com a chegada de sua carta essa saudade já diminuiu um pouco. Sinto muito não ter me despedido de você, pois cheguei atrasado. Meu coração ficou muito triste com a sua partida, cheguei até a pensar que você tinha viajado magoado comigo. Mas acho que meu pensamento estava errado. Com a chegada de sua carta, percebi o quanto você ainda gosta de mim. Na carta você diz: Fico triste por não ser eu essa pessoa pra te fazer feliz. Mas você é a pessoa que me faz feliz. O ursinho continua comigo, e no meu deitar, fico imaginando a sua pessoa juntinho a mim. Aqui termino com saudade. Beijos e beijos da pessoa que gosta muito de você. Edson."  


Em 1997 eu comecei o meu primeiro namoro sério com um homem, o Flávio, ele era negro, mas não muito escuro, tinha cabelos lisos até. Eu amei esse cara com toda a força do meu coração. Ele era muito muito inteligente, estava fazendo mestrado só por ai você vê que o QI dele era alto. Engraçado, a gente namorava em Belo Horizonte, ai eu fui transferido para Brasília. Depois quando eu sai de Brasília ele foi morar em Brasília, à trabalho. Desse modo, foi nossos trabalhos, nossas responsabilidades profissionais, que nos separaram.


"Bsb, 29/7/97. Meu querido XXX. Estou mandando pra você uma pequena recordação daqui. Foi a melhor foto que consegui tirar. Quando olhar para ela e ouvir o disco Older lembre-se que aqui há alguém que te quer muito, que sente sua falta. A última música do disco, se não me engano, e a primeira, eu dedico a você. A última está [escrita] no passado, mas entenda como presente também. Eu não quero ver você triste.  Quero vê-lo espirituoso e alegre. Você merece ser feliz. Meu telefone é XXX. Pode ligar quando quiser. Um abraço bem forte em ti! De quem te quer muito."


"Para o meu querido XXX. A pessoa mais doce que já conheci, mas que o destino nos separou. Mas fico feliz por tê-lo conhecido, ter vivido momentos felizes. Flávio. Belô 28/07/07."


Em 1998 eu conheci o Hamilton, numa boite e tivemos um relacionamento de uns 6 meses. Só que ele era do interior e ai eu para vê-lo tinha que viajar, ou ele viajar para Belo Horizonte. Ele era mais novo que eu, mas a gente estava apaixonado e tudo era só maravilhas.




Ele me mandou esse cartãozinho: "Te adoro. Te curto. Beijos! Ok! Hamilton".


Em 1998 ainda tive outra paixonite, mas acho que o cara acabou entendendo que era amor a coisa. Eu terminei com ele no dia em que ele me deu um presente de aniversário. Eu disse, olha não posso aceitar, estamos terminando, ele me disse fica com o presente mesmo assim para você se lembrar do tempo que ficamos juntos. Eu disse não posso e ele insistiu. Apertei a mão dele e desejei felicidades e guardei a camisa polo que ele tinha me dado na gaveta, só a usei anos depois.


"XXX. Que este seja portador do carinho e admiração que tenho por você, na certeza do mesmo não externar a dimensão deste carinho. Mesmo assim, neste dia que é seu, desejo-lhe muita paz, amor, alegrias infinitas... Parabéns! Abraços do sempre Jaime 8/9/98"

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O Jaime é de uma cidade a uns 100 quilometros de Belo Horizonte, que eu não conheço pessoalmente, e não o vi muitas vezes, mesmo assim o sentimento dele por mim, pelo que ele dizia, era muito forte. Mas eu não soube retribuir. Quando pensei em publicar aqui cartas de amor que eu tinha recebido eu fiquei admirado de encontrar uma poesia escrita pelo Jaime para mim. Foi escrita em 1998 e só ontem, 27 de janeiro de 2010, é que eu a li. Não sei como não tinha vista a poesia, ela é comprida, escrita em letras grandes!



"Encontro. 

Dê-me sua mão
Vamos sair por aí
A procurar um lugar
onde possamos descansar
Onde possamos nos abandonar
às ilusões
E quem sabe até
Construir nosso castelo de paz
Não tenha pressa,
vamos sair por aí assim
Deixando que tudo venha a nós
Fazendo que o destino
Se cumpra serenamente
Sem falsos anseios
Sem promessas
Exceto a certeza desse agora
Que nos uniu
Que nos fez únicos
Perdidos em um universo
Repletos de caminhos
Dê-me sua mão
Não nos percamos por ai
Como tantos se perdem
Vamos viver cada segundo
E se tivermos que nos 
desencontrar um dia
Que possa a felicidade de hoje
Transformar-se na força
que guiará nossa jornada no futuro
O amanhã é incerto
Nem mesmo sabemos se a vida
permanecerá em nós
Mas não nos questionemos
Vivamos!
Dê-me sua mão
Prenda-me com algemas de amor
E entrelace meu coração
De maneira tão irrevogável
Que jamais
Em momento algum
Eu possa arrepender-me
De ter vivido
De ter conhecido
E amado tão profundamente
Você.

Bondês 15-5-98 Jaime".


Em 2003 ou 2004, não me lembro bem, conheci o Miguel Alberto. Me apaixonei por ele, achava que era correspondido. E talvez tenha sido no começo, mas passados uns meses ele já estava frio e ausente comigo. Eu achava que o amava, desde que ele estivesse perto de mim, eu ia levando, achando que as coisas iam melhorar. Não melhorou. Quando o conheci ele morava num quarto apertado em uma pensão, convidei ele a vir morar aqui nesta casa que moro até hoje, na época minha família morava comigo, ele foi recebido de braços abertos por todos. Quando ele disse que ia embora eu fiquei muito arrasado. 



"XXX. Obrigado meu bem, por este 1o. mês de namoro! Te amo! Miguel Alberto!"


Lá pelo final do ano de 2010 a minha irmã teve que ser atendida num hospital de Belo Horizonte e encontrou o Miguel Alberto. Ele estava bem, quando a gente se conheceu ele estava fazendo o curso de auxiliar de enfermagem, acho que conseguiu um lugar neste hospital que é considerado bom. Minha irmã disse que eu estava bem e ela me falou que ele parecia bem. Que bom. No origami que ele fez para mim imitando um dálmata (na época eu tinha 2 dálmatas aqui em casa) ele escreveu "XXX. Meu amorzinho tenha um bom dia e que os anjos estejam com você. Te amo muito. Eternamente seu Miguel Alberto. Beijos."




Eu acho que vivi a vida, com seus altos e baixos, tive encontros e desencontros, alegrias e tristezas, enfim, fui humano, mas acima de tudo fui um gay que expressei minha sexualidade plenamente. Atualmente já faz 6 anos que estou num relacionamento, registrado em cartório, e eu espero que dure e que tenha sentimento e respeito entre eu e meu namorado. Quero agradecer aos meus ex por tudo o que houve, e fico me desculpando por ter entrada na vida desses caras tão especiais, e talvez não tenha ficado uma boa lembrança minha. Revendo essas cartas e anotações, percebo o quanto vocês foram especiais e generosos comigo. Muito obrigado. Tudo de bom.

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