quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sangue suor porra

Por acaso na Internet você encontra material que te surpreende. É o caso dos contos de Moa Sipriano, um autor de contos homoeróticos. Você que gosta de literatura feita por gay para gays, com toda a sensibilidade de dor e prazer que isso significa, por favor, considere visitar o site dele para conhecer um pouco mais. Alguns contos você pode baixar no seu computador para ler em formato PDF. Dou uma amostra do conto Sangue suor porra, que você acha na íntegra no site do Moa Sipriano.

"Diversão. Só isso.
 
Deveria ser algo passageiro, sem a menor importância, onde curtiríamos lapsos daquela sacanagem de minutos, durante o breve trajeto que separava nossos mundos.

 
Tudo começou num instante apressado. Eu perdi a hora. Entrei aos solavancos no ônibus das três. Lotação insuportável, esbarrões. Parece que tudo mundo resolveu abandonar a ilha no mesmo instante. Eu ali, cansado, caçando alucinado um espaço para abrigar meu corpo arfante.

 
Milagre! Enfim um lugar disponível. Uma breve olhadela para ver se não havia velhotas
caquéticas ou moçoilas barrigudas necessitando do sagrado assento divino. Nada. Livre. Milagre. O lugar presenteado pelo Destino... só pra mim!

 
Nem pedi licença, nem olhei do lado. Apenas aconcheguei meu corpão no espaço que agora me era de direito. Impossível não roçar na perna alheia. E esse foi o primeiro sinal da minha perdição.

 
Ele era um moreno alto, nobre, estilo militar: cabelo rente, muito bem cortado; rosto sério, travado, pra lá de compenetrado; olhar fixo à sua frente, em posição de sentido.

 
Alerta, sempre alerta!

 
Magro, porém farto de boa e tenra carne, era dono de um belo traseiro, coxas tentadoras e aquela mala discreta que escondia imensos segredos. 

 
Adoro desvendar os segredos dos homens.


Suas mãos se destacavam do resto do corpo. Dedos bem torneados, veias que saltavam dos dedos em direção aos braços rijos, isento de pelos; garras que prometiam uma boa pegada, daquelas de deixar saudades num gostoso momento de fodaria.

Sorte da vaca que caísse no vácuo daqueles braços forjados e sentisse a força daquelas mãos másculas, rústicas, estupendas. Uma ponta de inveja perpassou o meu corpo teso.


Muito calor vindo de fora, dentro de mim-eu-mesmo, e do meio dos nativos. Nas curvas
aconteciam espasmos de ousadia. Essa era a tática universal da caçada dentro de um ônibus: uma curva acentuada, uma leve roçada, uma enorme expectativa.


O militar não esboçou reação negativa diante das minhas pinceladas de atrevimento. Numa longa reta, ousei esfregar a ponta dos meus dedos na coxa alheia. Nada. Sem reação. Sem ataque histérico. Tudo morto. Distante."


O site do Moa Sipriano procura apresentar seu trabalho, que é exclusivamente literatura sobre todas as faces e fases da homossexualidade masculina. Eu, particularmente, achei os textos provocativamente realistas, quase um retrato do que acontece com a gente, comigo, com você, com qualquer gay. De modo que não se trata de uma literatura intelectual e acadêmica, mas sim de um espelho do cotidiano real ou imaginário que nos circunda. 

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