quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Boa noite cinderela

Quando um cara terminou comigo anos atrás eu pirei, eu achava que não ia conseguir viver sem ele. De uma hora para outra ele decidiu que tinha acabado (da parte dele) o amor e simplesmente me disse direto e reto fim e foi embora. Eu fiquei horas pensando o que é que eu tinha feito de errado, ou não feito o certo, para que isso acontecesse comigo. Por mais que eu pensasse, não chegava a uma conclusão, ao contrário, um leque de pensamentos se abria e cada direção dava uma resposta. Enfim, havia mil direções em que eu pensava e nenhuma delas respondia o porquê do fim do meu namoro.



Morava sozinho em uma casa de fundos muito próxima ao Bolão, um restaurante que serve uma macarronada muito famosa em Belo Horizonte, fica aberto 24 horas. Eu não aguentava mais ficar sozinho pensando em tantas coisas e sofrendo, resolvi sair e tomar umas cervejas. Comprei uma latinha no Bolão e sentei no banco da praça. Olhava para as pessoas sentadas na calçada do Bolão e ficava imaginando como elas pareciam felizes. E em como de uma hora para outra poderia acontecer algo e a felicidade delas poderia tornar-se em infelicidade, como aconteceu comigo. Sem elas terem noção da tal infelicidades estar a caminho. Pois é, não é preciso fazer nada, a infelicidade chega até nós, não temos que querê-la. Aliás, quem quereria?



Voltei e comprei outra latinha e resolvi pegar um ônibus para o centro, ir à boite gay, não queria ficar em casa sozinho cozinhando a minha dor. No centro parei num bar mais para ir ao banheiro e pra disfarçar (porque fico constrangido de usar o banheiro sem ser cliente) comprei uma latinha de cerveja. Saí e fui andando até a boite, já estava aberta, logo devia ser mais de onze da noite. Fazia umas 6 horas que eu tinha levado um fora e a dor não tinha diminuído nada, era como se ele tivesse acabado de me dizer que não havia mais nada entre nós. Fui ao bar e comprei uma latinha de cerveja e fiquei andando dentro da boite, ainda dava para andar, fiquei só olhando as pessoas rindo e conversando. Para distrair o imenso vazio e tristeza dentro de mim ver o mundo ajudava a aguentar o meu interior destroçado.



Fui bebendo e a boite enchendo, até que eu já me achava bêbado, isto porque parecia que meus sentimentos e pensamentos já não eram mais meus, era como se fosse de uma outra pessoa que entrou numa fria e se deu mal, mas que eu não tinha nada a ver com isso. Como se existisse uma pessoa como eu, que sofreu, mas que eu não tinha nada a ver com isso. É como se fosse uma manchete de tragédia lida num jornal, aconteceu com alguém, sinto muito, mas não foi comigo. Nessa sensação a boite me parecia o melhor lugar do mundo e eu estava agora confiante, como na música que diz abra as suas asas, solte as suas feras, eu estava no controle, era feliz. Estava até zoando os caras que sorriam para mim, poderia até dar uns beijos na boca, até fazer um boquete neles, afinal a noite era minha.




Curti com um cara no escuro, beijos e abraços quentes, mas quando a gente está com muito álcool na cabeça sexo fica sem condições, ele até queria que a gente fosse para o dark room para ele me comer, mas eu ria e ele acabou desistindo de mim, acho eu que decidiu tentar transar na boite com um outro, ainda tinha muita noite ainda pela frente. Só que numa situação dessa o fato dele ter parado por ali me deixou mal, eu queria mesmo era estar (bem perto) de alguém, e eu fiquei mal de novo. Só que com a cerveja toda que tinha bebido eu começei a passar mal. Fiquei enjoado, nunca fico com dor de cabeça, só aquele gosto de cerveja querendo subir pela garganta. Resolvi ir embora e quando estava perto da saída da boite um cara chegou até mim, colocou o braço no meu ombro e sorriu um sorrisão. Nunca vi ele antes, mas tudo bem, se alguém ainda queria ficar comigo, tudo bem.



Eu tive um pressentimento que devia ir embora, não dar atenção a ele. Achei estranho ele estar usando uma blusa com capuz dentro da boite já que estava quente. Ele me falava que não era da cidade e que se sentia perdido no meio de tanta gente que não conhecia e eu achei chato deixar ele sozinho e deixei ele falar, e como falava. Ou melhor, gritava, porque a música estava bombando. Fomos ao bar e eu paguei 2 cervejas. Depois de algum tempo eu estava animado com a companhia dele tão gentil e conversador, depois comecei a ficar desligado, nem sei quando decidi sair. Ele me segurava e só sei que entrei num taxi com ele. Não vi bem a cara dele na boite porque uso óculos de grau e estava escuro. Também no taxi não vi a cara dele, mesmo que tivesse visto quando bebo minha memória fica muito prejudicada.



Não me lembro mais nada depois de entrar no taxi. Isso foi numa sexta-feira e só acordei no domingo à tarde deitado no sofá da sala de casa. Fui mais uma vítima do boa noite cinderela. Não vou falar de coisas materiais roubadas. O que me deixou muito chateado foi que o cara prendeu o meu cachorro Thor na grade de ferro da janela e o meu cachorro ficou sem comer, sem beber, sem se movimentar direito já que seu pescoço ficou erguido devido ele ter enrolado muito a corrente e deixou pouca para o Thor se movimentar. Nem cocô ou xixi o Thor fez, ficou tomando sol durante o dia de sábado e da manhâ de domingo, sempre em pé, nem dava para ele se sentar senão se sufocaria.



A maldade com o meu cachorro foi o que me deixou mais indignado. Se o cara até me matasse, eu procurei confusão, então me expus... mas maltratar o Thor, isso me deixou revoltado. O crime de boa noite cinderela é considerado hediondo uma vez que não dá a mínima chance de defesa e escolha por parte da vítima. Tome cuidado para não se complicar como eu me compliquei, ok? Por mais vontade que você tenha de desaparecer e sumir do mundo, sempre tem alguém, nem que seja um cachorro, que gosta de você e está esperando a sua volta. Dê tempo ao tempo e saiba que sempre o amor também está reservado para você, em algum lugar, algum dia. Abraços.

Nenhum comentário:

Postar um comentário